Alguém aqui tinha alguma dúvida sobre o que aconteceria com essas jovens?
Bem, pelo visto sim, já que ninguém levou a sério o que acontecia. Entrevistas ao vivo, repedidas insistentemente diariamente. E quando não era ao vivo, era gravada, ou apenas com a produção do programa, e tudo que se falava com o criminoso era passado para o público. Incluindo o próprio criminoso, que tinha energia elétrica e TV para relaxar e saber o que se passava do lado de fora! Os políciais falavam que essa atitude não favorecia a negociação, mas também não fizeram nada para evitar.
Falava-se na TV várias vezes o quanto ele era um bom rapaz. Nas entrevistas, e desde o começo do sequestro, o criminoso falava que terminaria o sequestro assim que achasse que era um boa hora. Boa hora pra que? O que faltava pra ele liberar as meninas? Será que alguém se perguntou isso? Se tivessem buscado essa resposta, o final não teria sido esse.
Como tenho pouco a fazer, acompanhei bastante a situação e já sabia que o final seria esse. Não falei nada, porque não gosto de agouro, mas já dava pra sentir o final dessa história. Porque? Principalmente porque ele não pedia nada e não tinha nada que a polícia fizesse que fosse suficiente pra ele se entregar. Vejam minha análise da situação, não precisa concordar!
Na entrevista para aquela infeliz da Sonia Abraão, o criminoso deixou bem claro que não tinha intenção de libertar as meninas, mostrou que procurava qualquer desculpa pra dar um tiro nela, inclusive com um papo-furado de que a polícia tocou a campainha do apartamento e por isso ele quase deu um tiro na menina. A polícia cometeu muitos erros, mas não acredito que esse tenha sido um deles.
Depois de tanto sucesso na mídia, o criminoso se achou importante, se achou especial, afinal todo mundo entendia que ele era um menino bom, trabalhador, bom filho, bom amigo e que ele estava passando apenas por um momento ruim. Um rapaz apaixonado que só queria conversar com a namorada que o rejeitou, só queria uma conversa, 100 horas de conversa. Pintaram-no como o genro que toda a mãe quer ter. Palavras de carinho e compreensão foram usadas pelos grandes apresentadores da TV brasileira, que tinham certeza que o criminoso assistia aos seus programas.
Não perceberam o turbilhão dentro dele, e que era isso que motivava seus atos. Já não era aquele rapaz trabalhador, era um criminoso, armado e que colocava em risco a vida de duas meninas. O certo era ter mandado bala assim que puderam, mas não fizeram isso. E agora estavam todos nas mãos de um sujeito nervoso e desequilibrado, que desde o começo teve intenção de matar e nada nem ninguém mudaria a opinião dele.
Os erros da polícia foram enormes, mas foram todos motivados pela vontade de garantir a vida de todos os envolvidos. Sem contar a motivação de garantir a opinião pública favorável. Não há dúvida que qualquer desfecho teria sido polêmico, principalmente se tivessem matado o pobre rapaz apaixonado, tão bom moço, tão bom filho e trabalhador. E acreditem, não havia outro jeito ou as meninas estariam em perigo, ou o criminoso. Tentaram escolher a vida dos três, mas essa não era uma opção, pena que não perceberam isso cedo o suficiente.
Pergunto se a polícia não teria alguém fazendo perfil desse sujeito, alguém capacitado. Alguém que acompanhasse de perto a negociação e pudesse dar uma luz pra polícia sobre como agir. Pode parecer que não faz diferença, mas faz. Um rapaz de 19 anos que inicia uma relação com uma menina de 12 anos mostra características importantes, imaturidade, necessidade de se sentir importante. Afinal meninas tem o costume de se acharem fantásticas por namorarem com caras de outras faixas etárias, é como a menina que entra na faculdade e arranja um namoro com um mestrando. Imagina como se sente uma menina de 12 anos namorando um garoto que já pode dirigir! Puro deslumbre. Ele deveria se sentir como uma estrela da TV, vendo a namorada sendo invejada por todas as outras meninas, só porque ele estava com ela. Claro que não sei se foi assim que aconteceu, mas tenho a sensação que foi sim. Sem contar o domínio que ele deveria ter sobre ela. Ele era mais velho, teoricamente, mais esperto e deve ter tido a adoração dela por muito tempo. Perder o domínio sobre ela deve ter sido fatal para ele.
Além dessa análise sobre como esse rapaz era, uma pessoa que acompanhasse todo esse processo, poderia ter feito um perfil mais exato sobre o comportamento desse rapaz. Quem invade um lugar, armado e não tem nenhuma exigência? Só para conversar! 100 horas conversando! Isso é um indício importante, que passou sem ser percebido, ou sem ser valorizado pela polícia.
Vários erros foram cometidos, o principal foi acharem que ele não faria o que fez. A imprensa tratou o caso com sensacionalismo de sempre, fazendo da tragédia um circo. Novamente, tem sangue nas mãos, e minha esperança que um dia eles aprendam diminui a cada nova tragédia brasileira. Parece que não se sentem responsáveis por esse tipo de coisa. Parece que a vontade de dar a notícia é mais importante que a integridade dos que estão numa situação complicada. Tenho que dizer que dessa vez a rede Globo se comportou da melhor, só está explorando o caso agora que tudo terminou, não interfiriu nas negociações nem nada. Diferente de outras emissoras, que conseguiram um grande furo de reportagem.
Pra variar, uma tragédia não acontece por um só motivo. Muitos erros tem que acontecer para que tudo dê errado. Só não podemos esquecer que o erro maior aconteceu por culpa de um sujeito armado e com desejo de matar. Não pensem que ele estava doido, não caiam nesse papo de diabinho falando com ele. Ele é um sujeito de personalidade agressiva, não aceita frustração, um sujeito que não deve aceitar fácil quando é criticado. Se ele tivesse sido demitido de uma forma que ele achasse ruim, ele teria tido a mesma reação. Rejeição é o problema dele, um pena que as pessoas não tenham levado à sério as ameaças dele. É isso que acontece quando se tenta tratar um criminoso como alguém bom, que nunca fez mal a ninguém. Ele já não estava fazendo?
Espero que isso não aconteça de novo, mas que se acontecer, que a polícia esteja mais preparada e a população e a imprensa menos bitoladas.
Bjs, povo!
P.S.: Estou agora assistindo aquele jornal da record e o especialista falou basicamente o que falei aqui com relação a toda a operação, cautela da polícia, opinião pública e etc. Uma coisa que eu não escrevi no texto, que eu falei aqui em casa, é que o tiro que gerou a invasão não foi ouvido claramente no audio porque foi a queima-roupa. Sobre a Naiara, também foi um grande erro, que como falei, entra na cota dos erros cometidos com a intenção de preservar a vida do criminoso e da vitíma. A polícia quis mostrar confiança no sujeito, e como já falei, se tivessem um perfil mais exato do rapaz, saberiam que não poderiam confiar nele... E se conhecessem adolescentes, saberiam que adolescentes com síndrome de heroína, não deveria ser colocada na posição de negociadora. Quando foi que começaram a confiar em adolescentes, hem?! Na minha época, adolescente andaria com rastreador, se houvesse essa tecnologia! Se Naiara tivesse morrido, aí sim ia ficar feio pra polícia, nesse caso, eles tiveram sorte... Infelizmente, a ação não foi boa no geral. Se fosse em outro país, o tiro na testa teria sido no criminoso, não na vítima. Em qualquer país, a polícia nem negocia, se tiver uma mira segura!